quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nunca te vi, sempre te amei.

... quando a delegação de Poços de Caldas chegou ao Congresso Estadual de Professoras em Belo Horizonte, no início dos anos 30,fez furor. Era uma moçadinha bonita- não tão linda como a de São João da Boa Vista, na opinião abalizada dp prof. Antonio Cândido de Mello e Souza, que frequentava, os dois ambientes-, mas extremamente simpática e versada nas artes de bem receber. A presença constante da grã-finagem carioca e paulista, além disso, incutira-lhes um padrão cosmopolita de bom gosto.
É bem verdade que naquele grupo jovial e buliçoso não havia niguém que se igualasse à São-joanense Lúcia Azevedo Costa. Não houve homem ou rapaz da região, de fazendeiro a banqueiro, de professor a políco, que alguma vez não tivesse se apaixonado por Lúcia , e seu andar distraido.
Pelos seus olhos suspiraram as paixões adolescentes de Antonio Candido e~Walter Moreira Salles e a paixão tardia de Chico Ciência, o Francisco Campos, jurista mais poderoso do .estado Novo.
Bastou um olhar para o Prof.Campos oferecer a República à jovem Lúcia. Da janela do seu carro, viu Lúcia e a irmã Rita passeando em Poços, tirou informações sobre a môça e incontinente enviou para São João um emissário-o dandy carioca Aloysio Salles-com uma prenda que apenas os muito poderosos podem oferecer: se Lúcia aceitasse casar-se com êle, seria promulgada uma lei do divórcio, que lhe permitiria se separar de sua esposa, que padecia de problemas nervosos. O poderoso Campos ousava enfrentar a igreja católica, bastando para tanto um consentimento de Lúcia.
Lúcia recusou gentilmente, assim como a todos os seus pretendentes passados e pretéritos. E Campos acabou se casando com a viúva do chanceler Raul Leite.
Em 1949 na faculdade de filosofia, onde se apresentou ao já então consagrado prof. Antonio Candido, sem saber que quase lhe roubara as ilusões de adolescente, ao jamais ter reparado em seus olhares apaixonados.
As mocinhas de Poços não tinham esse ar distraido e fatal de Lúcia, mas tinham lá seu encanto. Tanto quando Diva de Paiva, depois Imperatriz, entrou no recinto do Congresso, com sua boina branca, encantou imediatamente um promissor poeta local. Pouco antes de voltar para Poços, Diva comprou o jornal do dia e estava lá o poema, "A Boina Azul", dedicado a ela, e assinado por Carlos Drummond de Andrade.
Antes de pegar o ônibus, telefonou para o jornal e conversou com o poeta. Trocaram telefones e endereços. Depois disso, durante 50 anos, Diva e Carlos corresponderam-se, telefonaram-se, passaram dos velhos telefones à manivela, para linhas sem manivela, mas movidas a telefonistas, entraram na época do telefone discado, do DDD, conversando religiosamente uma vez por semana, e trocando correspondências sem parar.
Nos ouvidos amigos de Diva, Carlos falava de suas paixões e desabafou a dor maior, da perda da filha, na última conversa que tiveram. Diva falou de seus dramas, com o ar jovial e otimista de quem via o mundo por meio das telas que pintava em seu pequeno atelier.
Na minha última viagem a Poços, semanas atrás, fui visitá-la, para completar sua história com Drummond. Informaram-se que dona Diva falecera. No lugar de sua casa, está sendo montado um barzinho que -espero eu- seja de boa música brasileira.
Aí fiquei pensando que esses meus velhinhos não param de morrer. Parem com isso!

Luís Nassif...

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